A vida tem a insistente mania de querer acertar tudo. Por que não poderia ficar como estava? Eles não se importavam, não queriam que mais palavras fossem ditas e as ilusões, as dúvidas, eram muito melhores do que estar frente a frente e ouvir uma verdade talvez terrível: o amor acabou. Mas não tinha acabado, na verdade estava longe disso. O céu chorava naquela tarde, talvez soubesse o que aconteceria depois, quando dois corpos, duas almas, duas pessoas que se encaixavam perfeitamente mas eram teimosas o suficiente para se recusar a isso, esbarraram-se. Nesse momento, tempestades se formaram e os rios calmos, tornaram-se mares violentos, com ondas que os inundavam por dentro. Pensaram em ir embora e nem mesmo pedir desculpas, mas algo os prendia, talvez fosse o amor, talvez fossem as palavras não ditas que lutavam para sair, fazendo com o que diálogo fosse inevitável.
-Eu… desculpe, eu estava distraído. Faz tempo que eu, que a gente… bom, você sabe.
- É mesmo. Três meses.
- Você contou?
-Tem um calendário pendurado na minha parede que não me deixa esquecer.
- E você queria? Digo, quer me esquecer?
- Não deveria? E o que te faz ter tanta certeza de que eu não te esqueci?
- Seus olhos… eles ainda brilham daquele jeito.
- De que jeito? Meus olhos sempre foram assim, não queira inventar desculpas.
- Eu sempre enxerguei algo mais neles. Um brilho só meu, destinado apenas para mim. Eu… senti sua falta.
- Mas eu não… Deixa.
- Não acha melhor sairmos da chuva? Você pode pegar um resfriado.
- Ainda se preocupa comigo?
- Todos os dias.
- Mas por que então você…
- Eu o quê?
- Nada.
- Por que não termina suas frases?
- Por que você não começa as suas? Quero dizer, por que não começa me explicando algumas coisas?
-Quais coisas seriam?
-Por que ainda está aqui seria um bom começo.
-Por que eu devo te amar, eu acho.
-Acha?
-Digo, depois de todo esse tempo ainda penso em você, não acha que é amor?
-Acho que é sensação de posse, você nunca me amou, convenhamos.
-Por que anda tão seca?
-Você me deixou assim, e mesmo com essa chuva, meu coração anda oco, você sabe, de tanto bater nele ele já deve ter-se quebrado.
- Acho que vou embora então.
- Você já foi antes.
- E como sempre, você não fez nada para evitar.
-Você não é preso a mim.
-Diga isso pro meu coração.
-Ele não escuta meus gritos te chamando, acho que se dizesse isso também não escutaria.
-Um dia ainda vou poder te chamar de minha?
-Eu sempre fui, mas nem por isso devo estar do seu lado, machuca.
-Ser minha?
-Não, eu ser sua, e eu ter tão pouco de você.
- Mas… mas você me tem por inteiro, só nunca soube catar os meus pedaços.
- Não quero pedaços.
- Talvez por isso eu deva ir. A única que pode me juntar diz não me querer assim.
-Eu quis.
-Quis?
-Muito, antes.
-Acho que vou embora.
-Você já foi antes.
-E como sempre você não fez nada para evitar.
Ele, pesadamente ajuntou seus pedaços que mais uma vez estavam jogados, perdidos em meio à calçada, apenas andou a caminho de algo, algo que o fizesse parar de pensar. Ela ficou olhando-o sumir, sem se mexer, pensando que o perdeu mais uma vez, ou se alguma vez o teve de fato. Não se permitiu chorar, os céus já teriam feito isso por ela, assim como ele não se deixou olhar para trás, pois às vezes o amor é tão forte, que o melhor é esquecê-lo, do que sofrer por ele. NOTASDEUMTOLO|OBLITERAR
(via agarotadacamisaxadrez)